Todos os Poemas para Thereza
Francisco Grijó
ELE
Tentei ligar novamente para Thereza com teagá, que me parece mesmo uma grande brincadeira fonética sem razão, mas a ligação caiu no momento em que ia recitar uns versos que eu mesmo faço e dos quais ela gosta muito, é claro. Tentei ligar mais umas duas vezes mas é certo que agora ela retirou o fone do gancho, recusa minhas métricas e rimas, tudo aquilo que eu penso pérola e ela bobagens sem vida, sem motivo. Depois, como sempre, fui imaginar que o corpo dela seria um grande pássaro sobre meu corpo – se não pássaro, algum outro vertebrado de bom movimento e boa química, talvez um lagarto de pele grossa ou um enorme mamífero mas que fosse raro por essa região. Thereza tem olhos que fixam, braços que empurram meu tórax e pernas de elástico puríssimo, por isso um animal diferente e não uma mulher com quem eu dividiria minha natureza cheia de febre. Vi Thereza num supermercado, na seção fria de laticínios, escolhendo iogurtes, queijos. Olhava embalagens e fazia contas de cabeça enquanto puxava um carrinho cujo conteúdo me fez constatar que se tratava de uma dona-de-casa em sua terrível tarefa de alimentar marido e crianças. Pernas longas sob o jeans apertado, peitos de carne cujos bicos eu supunha tão escuros quanto seu cabelo, o rosto era somente lábios e olhos. Acompanhei-a: o meu caminho lento e trêmulo, uma de minhas mãos no bolso e na outra um cigarro que se fumava sozinho, esquecido porque Thereza sim deveria estar em minha boca, e não o tabaco. Uma avenida enorme os corredores do supermercado, e eu em minha busca, Thereza no passo que parecia ritmo de aceleração, os glúteos como dois olhos juntos e cegos que me acompanhavam mas que repousaram num caixa. E Thereza, entre cheque e sorriso, agradeceu por levarem as compras até seu carro. Motor até muito modesto para a velocidade que seu corpo imprime com a força de tantos cavalos. Depois vê-la derrapar e colocar os óculos escuros para o sol, virar à primeira esquina e tentar desaparecer.
ELA e EU
“Não sei o nome. São uns telefonemas não muito abusados. Até educados.”
“Acha que ele vai vê-la novamente?”
“Não sei. Eu disse quem eu era, disse que era Thereza, falei minha idade também.”
“Falou de mim?”
“Claro. E das crianças, filho e filha, casal quase adolescente. Falei que você não ia gostar nadinha de alguém telefonando, falando coisas. Contei que você trabalhava.”
“Disse onde eu trabalhava?”
“Não. Nem o horário. Nem o nome da firma e acho que ele desconhece meu sobrenome.”
“Acha que ele seguiu mesmo você?”
“É possível. No telefone ele diz que me viu num supermercado, e depois na minha aula de ginástica, quando fui ao dentista, ao shopping com as crianças. Ele está me seguindo mas acho que é inofensivo. Nunca se aproximou, não sei como ele é nem preciso saber.”
“Quando foi o último telefonema?”
“Ontem pela manhã. As crianças na escola, você trabalhando, chovia. Não gosto de chuva, você sabe, também nem quero saber de trovoada. O dia parecia tarde, nove, dez da manhã, eu acho, e tudo meio escurecido. O telefone tocou e era ele.”
“Sobre o que conversaram?”
“Sobre nada. Olha, estou me acostumando, parece que conheço o toque do telefone, sei que é ele. Começa perguntando como estou, depois recita um poema curto, sem história, faz umas pausas grandes no telefone, acho que espera que eu diga alguma coisa, alguma coisa do tipo isso que você disse é bonito. Mas eu não digo, porque no fundo dizer alguma coisa é pedir que ele ligue novamente.”
“Mas ele liga novamente.”
“Liga porque não deve ter o que fazer. Ele me contou que é rico, e que não trabalha. Então gasta o tempo ligando para as pessoas, deve ser isso.”
“Ele liga para outras mulheres?”
“Fiz essa pergunta. É apenas uma curiosidade, não quer dizer nada. Ele falou que não. Que só liga para mim e vai continuar as ligações até que eu me encontre com ele. Pode ser em lugar público, ele disse.”
“Quer se encontrar com ele?”
“Claro que não. Tenho muito que fazer, tenho mais em que pensar.”
“Como são os poemas?”
“Não sei, não me lembro. São frases ligeiras, que falam de amor, de sentimentos, nada de vulgaridade, erotismo. Ele diz que são poemas dele, um milhão de poemas ele diz que tem em casa, todos com meu nome dentro. Fala em flores, em cheiros e gostos, fala em açúcar, mel, estrelas e marés. Um poema sempre diferente do outro, mas sempre eu nele, destacada.”
“Ele aparece nos poemas?”
“Não sei, acho que não. É a visão dele, o que ele pensa de mim, mas ele, ali, em carne e osso, acho que não aparece. Não me lembro, acho que não, não sei.”
“Ele não fala de si mesmo?”
“Não sei o nome, não sei o signo, altura, peso, forma, não sei quem é.”
ELE
É claro que segui Thereza. Carro de cor fácil e placa mais fácil ainda para olhos treinados como os meus, que viram Thereza e sempre vêem quando querem. Segui-a e sei seu endereço, telefone. Meu dia é simples: acordo com Thereza nos braços, levo-a até o banho quente, escovo-lhe os dentes e há café para dois. Então a vejo exposta em meus quadros, deitada em meu sofá, espreguiçada ainda como um animal que acorda com olhos não muito abertos, vejo-a andar pela casa, seminua, ir até a geladeira, voltar ao banheiro, olhar o dia, folhear os jornais sem lê-los, ouvir música enquanto sorri. Eu, também animal seminu, observo que sua carne é ainda mais sólida do que foi durante a semana que passou – eu e ela em maratona, corrida: um querendo chegar ao corpo do outro mais rapidamente, alcançar e resolver o que há de tão importante e de tão glandular. O gato que tem nos olhos, o dragão alucinado que solta fogo, o antílope de membros duros, todo o bestiário que amo e pelo qual me desespero. Thereza é assim e não como insiste por telefone. Diz que não devo ligar mais, mas sei que gostaria de dizer o contrário porque nada do que falo é injúria ou surpresa. Tem uma vida simples, eu sei, vida de sonhos que se resumem domésticos, nada de muito especial. Seus desejos mais ternos encontraram o abismo de uma rotina feita à base de idas ao supermercado, ginástica, açougue, algumas poucas reuniões de amigas, jogos de cartas, um cineminha muito de vez em quando. Nem sempre acompanhada, evita, é claro, olhares de homens como eu, que passam e voltam o corpo e os hormônios se revoltam. Sempre em linha reta, como se tivesse um objetivo a cumprir, e a carnadura em seu quique silencioso e ritmado, a mão às vezes nos cabelos, também às vezes olhando o outro lado da rua, mirando um ponto invisível que não sou eu, a segui-la pelo bairro. Não há estranheza em meu comportamento já que assim é minha vida: Thereza e meus poemas.
ELA e EU
“E as crianças?”
“Já almoçaram. Você demorou, mas eu quis esperar.”
“E com você, tudo bem?”
“Tudo bem, nada de anormal. Como sempre.”
“Ele telefonou?”
“Telefonou.”
“Outro poema?”
“Diz que sou luz, iluminação. Disse que me viu na rua, andando.”
“O que mais?”
“Perguntou se eu não quero conhecê-lo. Pergunta sempre, mas não me interesso.”
“Falaram durante muito tempo?”
“Uns dez minutos, talvez.”
“Luz e iluminação?”
“E também sabor. Uma coisa com muito sabor, ele disse. No fundo ele é engraçado.”
“Gosta da voz dele?”
“É bonita, grave e segura. Deve escrever o que me diz, deve estar lendo, por isso não gagueja, e pausa bem as palavras. Às vezes a voz fica seca, não se irrita nunca, mesmo quando desligo.”
“Desliga?”
“De vez em quando não estou com paciência nem tempo. Panelas no fogo, empregada pra vigiar, organizar alguma coisa em casa. Então desligo e quando ele liga, no outro dia, não faz menção. Nunca me disse que estava furioso nem me cobrou comportamento. Nunca reinicia a conversa, sempre é algo novo, um poema diferente, mas que mantém alguns pontos freqüentes. Eu, beleza, amor, impressões.”
“Amor?”
“Não deve ser amor de verdade, é claro. Não isso que sinto por você ou você por mim, claro que não. Ele fala amor de um jeito estranho, sem doçura, e em voz alta. Falar de amor é falar baixinho, no ouvido, cara a cara, no escuro. Quando ele fala de luz, por exemplo, não me importo. Também não fico chateada quando ele enumera minhas qualidades de mulher, nem quando se dá o trabalho de me seguir pelas ruas, mas quando ele resolve falar de amor eu não gosto. Sinto que não é verdade, é artificial.”
“Fica triste?”
“Logo esqueço.”
“O que mais ele disse? Perguntou por mim?”
“Não. Ele me falou, num telefonema anterior, que não se interessava. Não queria saber de você. Nem sequer menciona minha vida conjugal, meu marido, filhos, meu dia-a-dia de mulher comprometida.”
“E você?”
“Acho que eu gostaria de falar mas ele não me dá chance de eu dizer quem você é e que vivo numa família muito feliz, com dois filhos saudáveis, bonitos. Só se interessa por mim.”
ELE
Thereza está no closet, entre minhas roupas e meu cheiro. O seu corpo está frio por conta dessa estação de julho, ar gelado que rasga as janelas. Ancas. Tudo o que vejo agora são ancas, cada dia um novo elemento anatômico. Já foram pernas, braços, olhos, tornozelos, mas hoje são ancas que se revigoram no frio. Enlaço-a por trás, meu pau sua vertigem que ela rejeita mas sorri porque todos os elogios e reverências desabam sobre a exuberância de quem deve ter sido atleta, ginasta, fundista, saltadora. Vira-se e me empurra para a cama, sobre o edredom. As janelas são fechadas para que seus tríceps relaxem, seus olhos se fecham, minhas mãos como as de um cego que nada conhece. Quer que eu me sente, e implora que eu me mantenha duro como quando uso a voz a seu ouvido, minha língua que atravessa a distância e alcança seus ligamentos. Quer que eu nunca me recolha, que entre nela cheio de massa furiosa porque é assim que ela me vê: o homem que lhe pode arrancar os pedaços e juntá-los novamente. Penetro a sua carne aos poucos, e nos seus olhos a luz se apaga no mesmo ritmo. Vejo Thereza fechá-los e abri-los paulatinamente, sorrindo, enquanto imponho minha ginástica. Sinto seus pêlos roçarem meu púbis e ouço-a rir e pedir e dizer e sonhar. Depois, relaxada, ela se solta sobre a cama, sem palavras e força, nua e ainda sorrindo.
ELA e EU
“O que mais?”
“Ah, foi falando, insistindo para que eu o conheça. Acho que é brincadeira.”
“Mesmo?”
“Está se divertindo. Veja só! Liga pra ouvir minha voz.”
“Há quanto tempo está ligando?”
“Mais ou menos um mês, acho.”
“Liga todo dia, não?”
“Todo dia.”
ELE
Vi Thereza entrar no carro, estacionado frente ao edifício Mar do Norte. Mora num apartamento de três quartos, cento e vinte metros quadrados, varanda não muito espaçosa, vista daqui, de onde estou. O prédio tem salão de festas, coisa tímida, e há um playground. São quatro unidades em cada andar, num total de cinqüenta e dois apartamentos. Thereza mora no 11º, e tem uma boa vista da cidade até o momento em que a especulação imobiliária permitir. Ou eu, se ela quiser. Roupagem, de cima para baixo: os cabelos estão arrumados sem muito capricho, os mesmos óculos para um sol tímido, calça lee justa, camiseta bege com palavras em inglês à frente, tênis cuja cor não posso distinguir, mas talvez também bege, para combinar. Seu carro é um fiat sem luxo, cor branca e silencioso. Entro no meu carro e acompanho seu trajeto. Evito emparelhar no sinal, e seria fácil alcançá-la porque é motorista prudente ou iniciante: vai devagar pelas ruas, quase caminha. Sabe que eu a sigo e não quer que a perca. Será nosso assunto, amanhã, quando eu ligar entre dez e onze da manhã, meu horário que é costume e sei que ela me espera. Crianças no colégio, marido no trabalho, o sol enchendo o dia, Thereza à beira do telefone, à espera para um alô de pouco som, tímido. O fiat encosta frente a uma floricultura em cujos espaços Thereza entra para sair muito imediatamente, buquê nas mãos, ainda os óculos, mordisca o lábio inferior duas vezes e a sensação que tenho é de tudo um mistério, embora mísero e frágil porque nada de anormal em uma mulher como Thereza ir às flores. No fiat, novamente à própria casa, subir as escadas e eu acompanhar com os olhos até que seus quadris e pernas desapareçam na portaria. Também vejo Thereza dentro de meu carro, a meu lado, cabelo contido numa das mãos porque há vento e estamos numa estrada na qual testo o potente motor de meu carro. Olha-me como se me elogiasse por minha perícia ao volante, embora me peça que vá menos ligeiro, é apenas um passeio, ela diz. Montanhas, mar à vista, pontes, e os carinhos de Thereza que na verdade me atrapalham mas que não desprezo, a mão hábil vasculha meu corpo imóvel, abre o zíper e me encontra em estado pleno de aptidão. Apenas os pés no controle e as mãos no volante. O resto é seu. Para completar, a brisa que me acolhe e os lábios de Thereza em minha barba bem feita. Paro o carro, afasto-me da estrada e, juntos, sobre o capô, olhamos o mar ao longe, e também vejo Thereza rir. Gosto de Thereza rindo, mas sobre o carro prefiro vê-la com os olhos em mim, minha vida na sua, meu gozo que é espuma em seu corpo que é onda.
ELA e EU
“Por que o sorriso?”
“Nada. Sem motivos, nada especial. Que tal?”
“Bonito arranjo, bonitas flores.”
“Gostou? Comprei ontem mas você nem ligou.”
“Não reparei. E então?”
“Então?”
“Os telefonemas.”
“Ligou pela manhã, disse que me viu sair de casa, ir à floricultura. Acompanhou de longe, dentro do carro.”
“Qual o carro dele?”
“Nem tenho idéia, não perguntei.”
“Mais algum poema?”
“Um inteiro, grande desta vez. Falava de mar, flores, carros velozes.”
“E de você, é claro.”
“Claro. Um poema bonito, com rimas. Ele disse que era mais que um poema. Era uma homenagem, uma oração.”
“Ainda quer encontrar você?”
“Neste poema há um encontro. Eu e ele numa praia.”
“E o que acontece?”
“Ele fica me olhando e eu pra ele, e sorrimos. Isso, isso mesmo. Ficamos olhando um pro outro e mais nada.”
“Nenhum toque? Ele não encosta em você?”
“Não há vulgaridade. Se ele está querendo se divertir, consegue o mesmo comigo.”
“Você se diverte?”
“Nada de nocivo nos telefonemas dele. Até me distraio.”
“Espera ansiosa?”
“Não, não. Não posso afirmar que tenho muito prazer em falar com ele.”
“E se ele esquecesse você?”
“Não ia fazer falta.”
“E quanto ao amor?”
“Não existe amor.”
ELE
Thereza é múltipla. Antes eu reservava meus dias para mim, e isso incluía outras mulheres, outros nomes e situações. Hoje não: ligo e volto a ligar e faço disso meu dia, assim como segui-la e vê-la tornou-se meu hábito, mas de nada adianta porque apenas me ouve e nada diz. Acompanha silenciosa minhas palavras ou faz uma outra voz como se o que digo não importasse como importam os almoços que faz para a família, roupas que devem ser lavadas e arrumadas nos armários respectivos. Thereza é múltipla porque funciona de várias maneiras, dentro e fora de meus poemas, meus versos extenuados, vírgulas, minhas metáforas sofridas. Antes, muito antes dela, alfabeticamente, vieram Ana, e depois Fabrícia, Flávia, Helina, Joana – todas que não foram Thereza nem sequer minhas imagens, versos. Dor é imaginar o que agora faz sem mim, num outro mundo, e o que diz e partilha. É um longo dia esse meu, com visões em que Thereza refulge e desaparece, névoa até que o dia se torna noite. Não sabe quem sou nem saberá. Agora anda pela casa, shortinho, blusa com estampa, despojada, cobrindo o terreno pelo qual eu daria longas passadas, estacionando-me sobre. Thereza no banho: rápida ou lenta com a esponja, despreocupada de telefone e campainha, doce no toque do próprio corpo, espuma sobre metal moreno. Ela e sua delícia misteriosa, estranha sensação que é boa ao ouvir na lembrança minha voz que não lhe sai. Um tímido suspiro solitário, depois. Thereza e a toalha, frente ao espelho, como veio ao mundo e como vem a mim, os quadris que observo, os peitos durinhos de soberba, o cabelo molhado, o púbis em fogo e líquido mas a calcinha seu escudo contra mim.
ELA e EU
“E o seu dia?”
“Muito trabalho.”
“Você parece cansado.”
“Bastante. E você?”
“Tudo normal. Reunião na escola das crianças, amanhã.”
“Acho difícil.”
“Tudo bem, vou sozinha.”
“Nenhuma novidade?”
“Ele ligou bem cedo, logo que você saiu, uns vinte minutos depois. Não estava esperando.”
“Mais poemas?”
“É. Falei pra ele que dava pra editar um livro, brinquei. Ele ficou em silêncio.”
“Conversaram muito tempo?”
“Não é exatamente uma conversa. Ele diz alô e eu respondo. Depois ele começa a recitar o poema, os versos do dia. Pergunta se gostei e eu geralmente gosto mas fico em silêncio. Ele se satisfaz. Já insistiu para um encontro, mas desistiu, eu acho. Não digo nada, nada, só ouço. Então não é uma conversa. Acha ele perigoso?”
“O que você acha?”
“Não sei. Acho que não. Um dia pára de ligar, e esquece.”
“Esperemos, então.”
“Está preocupado?”
ELE
Imagino a nudez de Thereza que não é nudez mas uma revelação pura de natureza e plástico. Sob mim, a grama e planícies, o recôncavo. Thereza num poema curtíssimo, de sete letras que são seu nome, suas atitudes, seu gozo feito de planetas desalinhados, em desordem: aos urros está Thereza e aos gritos estou eu, agora seco porque ela me levou tudo, músculos, ossos, saliva e sêmen.
ELA e EU
“Chegou mais cedo.”
“Sem muito trabalho. Acontece.”
“Tudo bem?”
“Tudo.”
“Hoje ele não telefonou.”
“Não telefonou?”
“Não. Até estranhei. Talvez tenha desistido. Isso eu acho bom.”
“Acha mesmo?”
“Claro.”
“Talvez esteja viajando.”
“Pode ser. Mas me sinto aliviada. Todo dia, todo dia.”
“E as crianças?”
“No quarto. Videogame, claro. Não gosto, é o tempo todo nisso.”
“Será que ele desistiu?”
“Quem?”
ELE
Pois é assim que amo Thereza: eu do outro lado da linha e não como agora, eu, ela e filhos. Do outro lado da linha e da cidade, morto de inveja e de estranho medo de que ela me descubra. Não sabe quem sou nem o que faço, nem imagina que sou o mesmo de sempre, seu homem de cama e banho há anos, que só desse modo consegue amá-la, clandestino variando vozes e maneiras, insistindo em encontros porque sei que vai evitá-los mas sorrirá às minhas palavras, rimas. E será sempre a minha Thereza, o mesmo corpo que dilacero à noite, na escuridão. E perfuro seu púbis até vê-la sentir que a amo verdadeiramente. Resumo seu sabor inteiro num momento em que ela implora que eu nunca seja outro, que eu tenha a mesma cor e musculatura e disposição para ouvi-la recitar obscenidades enquanto jorra seu suor de ótimo cheiro e pede que eu faça mais e muito e tanto e sempre. Voltarei ao telefone amanhã, com um álibi inquestionável e um poema de desculpas que mirabolam minha cabeça. Thereza merece poemas, como merece também que eu olhe seu rosto agora, mirando um ponto escuro da janela, o mar à nossa frente, e pensa em mim. Vou até o banho retirar o peso de um dia inteiro e iniciar, sob o chuveiro, o poema de amanhã, porque só assim sou capaz de amá-la, e então enviá-la a planetas distantes e fazê-la voltar à Terra, em pedaços.
p.s. Porque é bonito e, coincidentemente, tem meu nome.